terça-feira, 25 de maio de 2010

A triste realidade enfrentada R.P.P.N. REVECOM: onde estão as autoridades para ajudar?

Hoje minhas palavras estão afogadas nas lágrimas que me tomaram ao ler este e-mail:
Olá, queridas amigas.
Agora conseguimos parar. Anteontem foi um dia terrível e o de hoje super carregado. O quati que teve a cauda amputada, automutilou-se de novo.  Sangrou muito, quase morreu. Sem anestésico para sedá-lo, tentei conseguir um empréstimo com o CETAS-IBAMA. Fiquei muito triste, ainda mais triste com as notícias de lá. A Dra. Sandra tinha o anestésico e prontificou-se a doar algumas doses. Quando soube que ela havia comprado o medicamento com seu próprio dinheiro (o CETAS também está em apuros) declinei da oferta e parti para a guerra, conseguindo setenta reais de doação, com os quais consegui comprar os medicamentos (Na Casa do Criador, em Macapá. Consegui um descontinho e comprei a três drogas por R$ 67,00).
Pela manhã de ontem o quati amanheceu péssimo e sangrando pela lesão da cauda. Não pude esperar pelo Denis. Anestesiei o quati e, com a ajuda de Marilene, fiz o que devia ser feito. Foram mais de duas horas de intervenção. Agora há pouco examinei o animal. Tomou água mas está muito debilitado. Está com um cone ao redor do pescoço o que impede a automutilação. O sangramento da cauda parou. Está protegida com uma tela de polipropileno cirúrgica doada pelo Hospital de Vila Amazonas. Teremos de aguardar alguns dias para que ele se recupere e possa sofrer uma segunda intervenção. Acredito que ele irá se recuperar pois é um animal muito saudável.
Hoje o quati amanheceu um pouco melhor. Começou a se alimentar, meio forçado, mas está comendo. Está um pouco revoltado com o "baldinho" ao redor do pescoço. O fato é muito natural, afinal deixou de ver o mundo como de hábito, além do que o artefato incomoda, mas... é necessário. Ainda agora consegui arrancar a tela cirúrgica através da coçadura, mas não está sangrando. Apresentou uma discreta melhora na coloração das mucosas. Compramos sulfato ferroso que chegou ainda há pouco. Depois desta mensagem vou tentar ministrar-lhe uma dose. Ele está com uma intensa depleção de ferro devido à hemorragia. Ele está com o sistema hematopoiético a todo vapor. Mais a frente ele  precisará de um exame radiológico de quadril para fazermos uma avaliação com vistas ao diagnóstico diferencial da patologia apresentada: distúrbio de comportamento com automutilação? Síndrome de compressão da cauda eqüina? Ele está sendo tratado com antibióticos, antiinflamatórios, clonazepan e muito carinho.
Tenho enviado mensagens constantes para algumas pessoas e autoridades. Estou aguardando um pronunciamento da PMS (Prefeitura Municipal de Santana) para o final do mês. O Prefeito está em Brasília. Amanha recebo uma visita de executivos da Anglo Ferrous Brazil. Fiz contatos com a Amcel solicitando ajuda. Também estive na SEMA solicitando ajuda do Secretário junto a UNAGEM (acho que o nome e este). 
Ontem a tarde foi muito sobrecarregada com diversos visitantes (Santo Antônio da Pedreira), para os quais não pude transmitir tristezas. Sábado teremos duas famílias visitando a RPPN. Consegui mais cem litros de diesel doados pela SEMA. 
Muito obrigado por tudo. Pelo força e apoio que vocês estão dando. Usando o velho jargão: "Unidos venceremos".
 Um forte abraço.
 Paulo Roberto.”

Para os que não conhecem, este é Paulo Roberto Neme de Amorim, um médico aposentado que tem dedicado sua vida em favor da natureza. Carioca naturalizado no Amapá há muitos anos e Guarda-parque por experiência de serviço e de coração, o Dr. Paulo investiu tudo o que tinha em seu grande sonho: criar a Reserva Particular do Patrimônio Natural REVECOM garantindo ao menos um pedacinho de verde para as gerações futuras que poderão contemplar a beleza deste lugar. Se ele continuar existindo é claro...
 Figura I: Dr. Paulo Amorim e o amor pelos animais. Foto: Elielson Penafort.

Entretanto, no que depender das autoridades “competentes” do estado, não sobrará muitos lugares assim para contar a história: O Centro de Triagem de Animais Silvestres – CETAS/IBAMA, como o próprio Dr. Paulo descreve no e-mail passa por situações tão precárias quanto as da reserva. Isso sem contar o Parque Zoobotânico de Macapá, que há muitos anos está fechado á visitação pública e já perdeu uma quantidade considerada de animais silvestres, vítimas das precárias condições do Parque. Infelizmente a mídia não mostra este tipo de coisas. Os gestores também se mantém num constante silêncio, talvez pelo medo de falar e mostrar a realidade para a sociedade.
Contudo, na REVECOM é diferente, pois não há o que temer em mostrar o trabalho que faz e as dificuldades que vem enfrentando. A reserva funciona há 12 anos no estado e passa por uma de suas piores crises financeiras da história. Tudo por culpa da falta de compromisso das instituições governamentais que deveriam dar suporte para a manutenção desta Unidade de Conservação, assim como nas demais instituições citadas. Mas, como sempre, a grande estratégia do estado é viver da política do “faz de conta”.
A REVECOM é uma Unidade de Conservação de uso sustentável. Foi criada em 1997 com o objetivo de desenvolver atividades na área ambiental. Sua missão e contribuição com o estado amapaense é defender o desenvolvimento sustentável por meio de programas e ações participativas, com o envolvimento da comunidade, entidades parceiras e com segmentos que desenvolvam atividades na área ambiental e comercial.
Tais princípios vem sendo mantidos a "duras penas” pelo proprietário desta UC, Paulo Amorim, que incansavelmente, acreditando nos seus ideais e na boa fé das pessoas, continua seu trabalho de disseminar o patriotismo e o amor pela terra na sociedade amapaense, que há muito tempo parece ter esquecido seus valores, tendo se acomodado diante ás tantas problemáticas existentes no estado.
Atualmente a reserva mantém mais de 300 animais em cativeiro, sem contar as espécies que foram reintroduzidas nos 17 hectares de mata fechada da mesma. Conta com uma equipe atual de 11 funcionários, nos quais os mesmos fazem um esforço quase sobrenatural para manter o conforto e a qualidade de vida a esses animais, sendo muitas vezes mais do que simples funcionários, mas sim verdadeiros amigos da natureza.
 Figura II: Alguns animais que estão sobre os cuidados da REVECOM. Fotos: Elielson Penafort.
Contudo, os gastos gerados para manter todo este patrimônio natural também são altos, girando em torno de R$100.000,00 mensais, que vão desde a manutenção dos logradouros, despesas com combustível, compra de materiais de limpeza e pagamento de funcionários.
A alimentação dos animais é uma despesa a parte. Para os carnívoros, há um gasto considerado na compra de carne vermelha para os felinos, peixes e crustáceos para lontras e outros animais. Hoje a reserva conta com a doação de avarias – restos de verduras, legumes e frutas que saem dos supermercados. Sabe aqueles alimentos que as pessoas não compram porque estão com uma aparência feia, amassados ou parcialmente estragados? São estes mesmo!
Pelo menos duas vezes na semana, o Dr. Paulo, juntamente com alguns funcionários saem da reserva para buscar estas avarias. Isso quando o carro não quebra ou fica sem combustível, o que já aconteceu muitas vezes e dificulta ainda mais os trabalhos dos mesmos. Ao recolher as avarias, tudo segue para uma minuciosa triagem, no qual é separado tudo o que poderá ser cozido ou servido diretamente aos animais como alimento do dia. Tudo é aproveitado, pois até mesmo os legumes, verduras e frutas estragadas vão servir de alimento para a fauna decompositora de invertebrados, como besouros, borboletas e mariposas que se reproduzem nas matas da reserva.
 Figuras III, IV: Tratamento de peixe para alimentação dos animais piscívoros.
Figuras V e VI: Triagem de avarias e dispersão de legumes pela reserva aos animais decompositores. Fotos: Elielson Penafort.

Desde que foi criada em 97, a REVECOM já recebeu mais de 17.000 visitantes, que estão registradas no livro de visitas para quem duvidar. Aos visitantes é cobrado uma taxa simbólica de R$10,00 (dez reais). O valor do ingresso é todo revestido nas atividades da reserva e o passeio vale muito á pena. No entanto, poucos visitantes estão aparecendo e isto encarece ainda mais os recursos de manutenção da REVECOM.
Vivendo de doações por instituições privadas que quase sempre doam recursos como forma de compensação ambiental por impactos ambientais gerados á biodiversidade do estado, mineradoras como a extinta MMX, mensalmente doava um valor relativamente bom para ajudar nas despesas, firmando um termo de cooperação técnica temporário por alguns meses. Como seu prazo de obrigatoriedade nas doações cessou, além do fato da mesma ter sido vendida para a empresa Anglo Ferrous Brasil, atualmente a reserva não está recebendo doações de ninguém.
Vez e outra aparecem algumas empresas que doam algum bom valor,, mas o que de fato a REVECOM precisa é de doações mensais permanentes para ter segurança e estabilidade na realização de suas atividades.
Como o próprio Dr. Paulo descreve no e-mail acima, há muitas promessas por parte de instituições municipais e estaduais, mas nada garantido para agora. Com isso o desespero toma conta de todos nós que acreditamos no trabalho que esta reserva vem desenvolvendo durante esses 12 anos de existência... O que está faltando para que o estado se manifeste á respeito do assunto?
A reserva tem reconhecimento internacional, nos quais já recebeu visitantes de vários países, programas de televisão e até mesmo filmes e documentários já foram gravados na REVECOM. Com tanta notoriedade nacional e internacional, pergunto: Por que o próprio estado do Amapá não valoriza e apóia este patrimônio tão importante para o mesmo?
Hoje o sentimento que toma conta de nós é de revolta e indignação em ver o grande descaso do Amapá, uma terra tão rica em natureza, detentora de uma fauna e flora exuberantes, sendo tachado e cobiçado pelos outros estados e até mesmo outros países como o estado mais preservado do Brasil. Infelizmente esse estado, está deixando muito a desejar com seus animais, sejam domésticos ou silvestres. Ninguém parece se importar com isso.
As autoridades não estão cumprindo seu dever da forma que deveriam e a falta de ações facilita também a entrada de ONGs estrangeiras mal-intencionadas, que vem até o estado para explorar e roubar nossas florestas ou incentivam discretamente a prática da biopirataria, bioprospecção além do tráfico de animais silvestres. Isso sem contar o grande índice de caça e morte de animais para venda de suas peles, carne, olhos, genitálias e tantas outras partes para consumo, produção de acessórios e medicamentos.
Até quando vamos deixar isso tudo acontecer? Ao que parece vamos deixar que tudo se acabe para depois valorizarmos, uma vez que as pessoas só valorizam quando perdem. Mas poderá ser tarde demais, pois o Amapá depende de suas florestas e de sua biodiversidade para sobreviver. Infelizmente, no momento, poucas pessoas enxergam esta realidade e tentam investir nesta idéia. O Dr. Paulo Amorim é uma dessas pessoas, que acredita nos princípios da ecopedagogia, tenta por em prática o que diz na carta da terra e acredita que a educação ambiental deve ser disseminada para todas as idades, confiante principalmente nas crianças, pois as mesmas devem ser instigadas a possuir este amor pela terra desde pequenas, e assim deveria ser o ensino nas escolas de todo o Brasil.
 Figura VII: O importante papel que a REVECOM vem exercendo no Amapá: a Educação Ambiental. Foto: Aaron Burton.

Venho pedir através deste texto que não fiquemos mais calados diante desses problemas. A REVECOM precisa de todos nós pra continuar fazendo seu trabalho. Vamos ajudar a divulgar estes problemas por aí? Neste momento, preciso de todos os amigos. Por favor, não fiquem calados perante a isto! A natureza agradece e a REVECOM também!
Ainda acredito em pessoas sérias, patriotas e que amam e valorizam a terra onde vivem!
Dedicado á REVECOM e ao Grupo GAIA de Conservação á biodiversidade, além de todas as pessoas que acreditam no Amapá como um estado modelo de preservação e patriotismo para o mundo... Falta agora as pessoas acordarem para esta realidade, arregaçarem as mangas e fazerem valer seus direitos e deveres de cidadania, sendo um desses direitos questionar e criticar racionalmente o que está errado e um dos deveres investigar e participar das decisões políticas do estado, o que na prática vem acontecendo muito pouco. Vamos acordar pessoal!
Atenciosamente,
Rayssa A. Barros – Guarda-parque brasileira,
Estudante de Biologia da UNIFAP
Ambientalista de coração! (rayssabarros.blogspot.com)

PARA MAIORES INFORMAÇÕES SOBRE A RPPN REVECOM, ACESSE O SITE:  www.revecom.com.br ou nos blogs: rppnrevecom.blogspot.com  e babiprotegendoaamazonia.blogspot.com

Um comentário:

  1. Estimados colegas! gostaria de parabenizá-los pela vitória da chapa 2 e agradecer por estarem divulgando este problema que a revecom vem enfrentando!!! valeu mesmo!
    Rá.

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